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parceria

a dor não cabe

a dor não cabe na palavra  no gesto no toque na expressão  não cabe no banheiro fechado no cantinho solitário não cabe no silêncio  na lágrima que sai na frente nas outras que vão atrás  e juntas passam por aqui  não cabe nem com jeitinho nem de qualquer jeito  não tem caixa mala mochila  bolsa garrafa cilindro  gaveta armário pasta  a dor não cabe no peito ela escorre suas vísceras  transborda sem limites  inunda tudo  a dor não cabe no exorcismo na purificação do dia seguinte  no abraço da cura  não cabe nos porquês  nos protocolos  nas assinaturas  nas permissões  nas medições  a dor não cabe nesse adorno  nem na saudade  Dio

vento

vem tô aqui mas o vento não trará você  a não ser que o vento que venta a lenta espera  vente rente à minha janela  vem tô esperando mas o vento não trará você  a não ser quando o vento que sopra embora no breu sopre nobre o que é meu o vento não trará você  mas vem tá? Dio

incandescente

veja nos olhos do Fogo o alcance das imagens turvas  oriundas do âmago invocado  pelas alucinações desarticuladoras  um quarto na língua da Serpente  alarga o raio de ação  a imaginação brota do ventre que cospe larva  placenta incandescente de mil faíscas vivas formigam almas cambaleantes  cometas-borrões irrastreáveis pegam pela mão e levam para voar  no céu vermelho da antevisão  pupilas saltam no sereno  queimam sob o Manto Maior Dio 

fotopoema

Carrossel Desesperança

Não tenho tanta afeição assim pela humanidade  Nem que eu fosse a melhor pessoa do mundo  Alguém muito bem remunerado Querido pelos meus pares  Admirado por desconhecidos que me param na rua  Nem assim a humanidade teria cinco minutos da minha atenção  Dessa cara-metade virada pro muro das posses acumulativas  Talvez eu salvasse uma meia dúzia de dois ou três  O resto eu quero mais é que queiram menos Menos bem menos muito menos menos mesmo Quase nada que não seja humanamente necessário  Me faça esse favor em agradecimento  Parcela agonizante cadavérica putrefata O cheiro que vem de longe  Não me entenda mal  Não te desejo mal Eu quero é festa no dia da nossa extinção  Dio

super-herói

           de um professor cansado...  tá me vendo com um s no peito? tá me vendo voando? tá me vendo de capa? com a cueca por cima da calça?  eu não sou de outro planeta eu não tenho super poderes eu não sou um ser divino o mais divino entre os seres  minha força não vem do sol da creatina ou do whey protein  eu não tô nem aí não  pra cafona da lois lane  tudo isso me enche o saco tudo isso me irrita eu quero que se foda a porra da kriptonita  a verdade doi doi lá no fundo eu não sou super-herói  eu não vou salvar todo mundo  Dio

Centenário de Allen Ginsberg

vá além  vá allen tome gin sberg-se  Dio Costa

enquanto rod stewart janta no leblon

a ordem do dia é limpar  fazer uma faxina geral  mudar a sujeira de lugar evitar o lixo no local  mas varrer a poeira é de bom tom  enquanto rod stewart janta no leblon  porque poeira não tem razão  sim não certo errado  nem interesse ou opinião  no chão higienizado  mas tá tudo muito bem tá tudo muito bom enquanto rod stewart janta no leblon  histórias sem menção  apagadas no ar contadas pela mão  suja de tanto limpar  mas a arte de esterilizar é um dom  enquanto rod stewart janta no leblon  um quê de conivência  e o planejamento neanderthal  orgulha-se da convivência  com a inteligência artificial  mas o chatgpt responde em alto e bom som  enquanto rod stewart janta no leblon  a máquina vai lá  com olhar perverso  e vende sem gaguejar  tragédia como sucesso  mas envie sua reclamação para reclameaqui.com enquanto rod stewart janta no leblon  Dio ...

meu relógio*

meu relógio pendurado no ar  tem números soltos  e ponteiros correndo ao contrário  em círculos diminutos  na antessala do tempo  quando parece vir tudo de uma vez  e você é só um para lidar com tanto  meu relógio não faz tic tac  é toc toc tik tok não me toque  idiossincrasias onde pulsa o peito  ecos e eletros na bateria da vida  essa usb desconectada  quando parece vir tudo de uma vez  e você é só um para lidar com tanto  meu relógio assusta logo cedo  queima formiga perde o controle  o sangue dá uma volta por aí  traz remédios aos tubos  enquanto aguarda o comunicado  quando parece vir tudo de uma vez  e você é só um para lidar com tanto  meu relógio (des) para está onde nunca esteve  (in) farto das horas lentas  rastejando-se por algum alarme  para os olhos abrirem novamente  quando parece vir tudo de uma vez  e você é só um para lidar com tanto  *d...

não tem

a tia queria comprar bala adivinha qual bala lhe faz feliz? a tia queria comprar bala ela queria comprar bala de anis  a tia perguntou pro moço o moço parecia que era eu a tia perguntou pro moço  e o moço respondeu  - tem bala? - bala de quê? - de anis - anis tia não tem - anis tia não tem - anis tia não tem - bala de anis tia não tem  Dio

pedido

quais são as chances das bombas que matam não explodirem antes? difícil  aquela estrela cadente  não ser outro míssil  Dio

99 anos de Allen Ginsberg

E se eu te dissesse que Allan Ginsberg esteve no Brasil? "Quando liguei para Allen Ginsberg, Peter Orlovsky atendeu e disse que Ginsberg não estava, que voltaria logo, e perguntou se eu não poderia ligar mais tarde. Respondi que sim, sem problemas. Liguei novamente. Ginsberg atendeu desta vez. Conversamos por uns quinze, vinte minutos. Gregory Corso estava com ele e conversou comigo também. Falamos sobre pais, família, tradição. Ginsberg era uma figura conhecida, entre outras coisas, por estar sempre disponível. Disse que se tivesse minha idade, iria gostar de conversar com William Blake ao telefone. Lembrou das conversas que teve com William Carlos Williams. Segundo ele, era como falar com um mestre que apontava uma direção, que dava uma base - o que lhe foi muito útil". Dio E se eu te dissesse que Allen Ginsberg esteve no Brasil?